"Foi numa manhã de sábado, Outubro de 2003. Quando todos se preparavam para gozar o merecido descanso do fim-de-semana, eis que uma notícia abala os alicerces da nossa sociedade: o regulamento do Big Brother estava presente num manual escolar de Língua Portuguesa do 10.º ano." Por Maria Fernanda Rebelo
Foi numa manhã de sábado, Outubro de 2003. Quando todos se preparavam para gozar o merecido descanso do fim-de-semana, eis que uma notícia abala os alicerces da nossa sociedade: o regulamento do Big Brother estava presente num manual escolar de Língua Portuguesa do 10.º ano. O escândalo rapidamente varreu o país, fazendo saltar para os jornais, para as rádios, para as televisões, enfim, para todo o lado, gritos lancinantes de choque, de horror, perante tal atentado dirigido contra o sagrado edifício da Educação.
Era a prova, provada, que, definitivamente, Portugal tinha caído em desgraça. Augurou-se o pior: milhares e milhares de adolescentes seriam dados como perdidos, partindo em debandada rumo à casa mais vigiada do país, onde dariam hossanas ao lixo televisivo, perante a impotência dos professores, incapazes que são de orientar a aprendizagem dos seus alunos, e dos pais, inocentes espectadores desta verdadeira novela da vida real. Onde estava o Estado, onde estava o ministro? Aqui D'el-rei, que há que retirar, há que avaliar, há que prevenir, há que censurar.
Felizmente que esta triste novela está a chegar ao fim. Apesar de ainda se ler, aqui e ali, deliciosos disparates, a febre do manual Big Brother vai-se esmorecendo na espuma dos dias.
Convém recordar que o que motivou toda esta polémica foi uma página de um manual escolar onde constava o regulamento do concurso televisivo Big Brother, acompanhado das seguintes questões que aqui transcrevo: "Em diálogo com os colegas da tua turma, refere o que já conheces sobre este concurso"; "Após a leitura do regulamento, emite o teu parecer sobre o mesmo". Isto está de acordo com o programa? Objectivamente, está. Serve os objectivos definidos para a unidade em se insere? Objectivamente, sim. A utilização do regulamento daquele programa é, digamos, de bom tom? Isso já depende da opinião de cada um. No entanto, parece-me que as autoras assumiram um risco, talvez cientes da dificuldade que nós, professores, experimentamos ao tentar captar a atenção dos alunos.
Contudo, nada do atrás exposto foi tido em consideração pelos muitos opinadores que vieram censurar - ou pior, pedir a censura - aquela malfadada página, que, ainda por cima, é responsável por não se estudar os clássicos da nossa literatura... Se se tivesse analisado com algum cuidado e pormenor o manual em causa, certamente não se teria lido e ouvido tantas interpretações erradas e juízos precipitados; talvez não se ficasse com a amarga sensação que, para muitas das lusas mentes brilhantes, os professores são pedagogicamente incompetentes e os alunos, pasme-se, acéfalos.
Não, não houve bom senso. Vivemos dias conturbados, deprimentes e tristes, que nos têm empurrado para um estado de psicose colectiva e de mediocridade intelectual. A superficialidade e a cegueira mediática sobrepõe-se à ponderação e à seriedade. São tempos de crise, é o salve-se quem puder, eu sei. Melhores dia virão, esperemos todos.
Maria Fernanda Rebelo
Professora
Fonte:
http://www.educare.pt
Comentário:
Sem querer aqui fazer juízos de valor acerca do programa em si, pois este tem o valor que tem, o melhor o valor que as pessoas da nossa sociedade lhe atribui, gostava de afirmar o meu total apoio para a “censura” dessa folha dos manuais escolares.
Não é preciso elaborar grandes dissertações teóricas para evidenciar o facto de os mass media e principalmente a televisão, nos dias de hoje terem grande influência no desenvolvimento das opiniões públicas, no desenvolvimento das mentalidades individuais.
Concordo com o artigo quando se afirma que vivemos tempos difíceis, tempos de “psicose individual” e de “mediocridade”, mas será que também vivemos no tempo do “vale tudo”? em que todas a estratégias são aceitáveis? Neste caso será que esta estratégia é válida? Será que os educadores poderão utilizar todos os artifícios na busca incessante da atenção do aluno? Na nossa opinião, não.
Sim podemos argumentar que os currículos devem se coadunar com as vivências dos alunos, devem chamar a atenção para a os aspectos quotidianos de forma a que os alunos se identifiquem com o que esta a ser leccionado, mas então a pergunta de fundo será, então o Big Brother faz parte de um capital “cultural comum”, na medida em que todos os indivíduos da sociedade se identificam com ele e toda a gente sabe o que é? Mais uma vez a nossa resposta é não. O aluno, enquanto aluno, pode tomar a decisão de não ver o programa, de não ser influenciado pelo lixo televisivo, mas após essa tomada de decisão tem que ir para a escola e saber, neste caso, o regulamento do referido programa? Não. Não devemos piorar o assunto do lixo televisivo transpondo-o para a escola. Isso será não acreditar no poder do professor, mas sim acreditar no poder da televisão. O professor pode fazer se rodear de outras estratégias que não passem por “deliciosos disparates”.
A adopção de tais conteúdos nos manuais escolares, responde, no nosso entender a lobbies político-económicos, com ideias de economia de mercado foi introduzido este tópico, de modo a que este manual fosse mais facilmente adoptado. A questão residual é, então, económica: nada tem a ver com a educação. O facto é que este tema não deveria estar num manual de português do décimo ano, pois com este precedente aberto, as temáticas dos manuais iriam corresponder aos índices de share da televisão e veríamos, não num futuro longínquo, mais lixo televisivo nos manuais, quem sabe transcrições de notícias de certos canais populista… depois disto podemos esperar tudo, e sim objectivamente os exercícios acerca desse lixo televisivo poderiam estar de acordo com o programa.
Não desacreditemos mais a educação e os professores e principalmente não tomemos com dado adquirido o facto de os alunos serem acéfalos, como a autora refere, acéfalos ao ponto de aprenderem com o regulamento do Big Brother.